Juro que tentei não tripudiar ou escrever sobre a final do Mundial de Clubes, em que o Santos perdeu para o Barcelona por 4 a 0. Tanto que depois de ler tudo que tinha direito, de ver toda a imprensa esportiva sofrer um saboroso choque de realidade após a derrota do time santista – imprensa essa que só perde em matéria de credibilidade para a política – e, finalmente, de ver, rever, olhar cada detalhe da partida, resolvi dar meu pitaco. Coisa que foi rara nesse ano.
Mas meu foco não é o jogo, o Santos, o Messi ou o moicano do Neymar, mas ele: Muricy Ramalho!
Nos últimos sete anos, Muricy foi o cara mais idolatrado no mundo técnico do futebol. Todo mundo achava (acha?) o mestre da bola, o bom entendedor do assunto e, por ficar no país, um injustiçado, que só não era o melhor do universo porque existia um tal de Mourinho por aí (outra farsa).
Eu, como torcedor do amado clube brasileiro São Paulo Futebol Clube, sempre fui considerado ingrato porque o “simpático velhinho rabugento” “nos deu” três títulos brasileiros, onde a jogada manjada era cruzar na área, fazer um gol de cabeça e recuar o time para mandar bicão para frente e esperar os 90 minutos passar.
Odiava isso, assim como odeio até hoje.
Era um papinho de “Se quer espetáculo, vai no (Teatro) Municipal”, “Se vacilar, a bola pune”, “Aqui é trabalho, meu filho” que enchia o saco. Como bom torcedor de futebol que sou, quando chegava a hora de gritar “É CAMPEÃO!” esquecia tudo isso, saía para o abraço e aloprava todo mundo que via pela frente. Até começar o Paulista e a Libertadores e passar raiva novamente. Com o ciclo se repetindo por três anos e meio.
Até que em 2009, após a mais vergonhosa eliminação do São Paulo em um torneio oficial, onde o time não deu um chute a gol, jogando no Morumbi, finalmente o “velhinho rabugento simpático”, que curtia dar umas porradas em jornalista do baixo clero, principalmente quando perdia – e depois ironizava nas vitórias – foi mandado embora do Morumbi.

Como nenhum clube brasileiro gosta de arriscar, todo mundo adotou essa maldita escola gaúcha de futebol, onde o segredo é uma defesa forte, cheia de volantes, a bola aérea para conseguir um golzinho e segurar o resultado e, assim, garantir os preciosos 3 pontos.
O Morumbi ficou uma terra arrasada e ainda está se recuperando dessa maldita herança de futebol de resultados, mas já está melhorando em alguns aspectos.
Já o Muricy foi para o Palmeiras, onde quase foi campeão com o mesmo estilinho. Depois foi para o Fluminense, onde conseguiu a façanha de ser campeão. E também de estragar um time que jogava bonito desde 2007, mesmo perdendo.
Houve a história da recusa de ir para a seleção, mas isso está mal contado até hoje e todo mundo sabe que o mister “Aqui é Trabalho, meu filho” tem o sonho de treinar a selecinha brasileira. Após muito “disse-me-disse”, ficou a história que ele “recusou” treinar o Brasil para cumprir o contrato com o Flu. No final, foi outro filhote de Parreira para lá.
Aí chegamos ao glorioso e mágico ano de 2011.
Muricy, cheio de marra e de frases feitas, começou o ano treinando o Fluminense. Como todo começo de ano, principalmente em mata-matas, o sr. Ramalho fracassou no estadual do Rio. Enquanto isso, na Libertadores, o Flu, que teve participação épica em 2008, só dava vexame. Quando a água bateu na bunda, o “ético”, “íntegro”, “honesto” e outros adjetivos que todos dão ao seleto senhor, forçou sua saída do clube, alegando falta de estrutura, ratos e mais um monte de coisas que desmoralizaram o Fluminense, que mesmo com a sua saída ainda tentou uma reação na Libertadores, mas não conseguiu se classificar.
Muricy, que não é besta, só ficou vendo a barca de Adílson Batista afundar no Santos, time que tem como principal característica, principalmente pela defesa fraca e pelo meio de campo e ataque especial, atacar. Nessa, o Muricy, que como já disse, não é besta, assume o Santos, dá uma ajeitadinha na defesa, mas não MEXE no esquema tático e deixa o time no automático para “passear” na Libertadores, sofrendo para eliminar o América-MEX, Once Caldas e Cerro.

Título inédito, mais um “desabafo” do professor e, como diria o lendário e sábio Renato Gaúcho, hora de brincar no Brasileiro e de “acertar” o time para o Mundial no confronto dos “Sonhos” contra a esquadra de Guardiola, Messi, Puyol e amigos.
Pulo o sofrimento que o time de Santos tem em achar um padrão tático durante o Brasileiro, inclusive suando para ganhar do time reserva do Bahia na Vila Belmiro, e chegamos ao Mundial.
Muricy arma o time de um jeito contra o Kashiwa Reysol que quase achei que daria uma Mazembada. Mais uma vez, a imprensa diz que Neymar, o deus-sol-caiçara, fez a diferença. Tirando um outro periódico/colunista que falou que o time jogou mal, todo mundo exalta os 11 de Ramalho.
Domingo, 18 de dezembro de 2011, Muricy esquece que seu time tem o talento natural para atacar e arma uma retranca que nem Celso Roth ou Mano Menezes teriam a coragem de fazer.
Aí, amigos, finalmente chegou o dia que Muricy viu o espetáculo, sem nem precisar ir ao Municipal, mas vendo de dentro.
Muricy finalmente viu que trabalho não é só resmungo, mas também é alegria e feito com gosto.
Muricy finalmente voltou a ver futebol de verdade, dos tempos em que era “aluno” (segundo ele, pois certeza que esqueceu o que aprendeu) do Mestre Telê Santana.
Assim como o time do Santos estava completamente perdido, Muricy não sabia o que fazer. Quer dizer, sabia queimar um dos pouco que tentaram alguma coisa, fazendo uma substituição inútil, tirando o PH Ganso – com problemas com a diretoria e parte da torcida – para colocar Ibson, numa clara afronta à inteligência humana e forma de achar um culpado pelo massacre.
Depois do espetáculo, o sr. Ramalho ainda teve a audácia de dar algumas patadas ao responder as perguntas dos repórteres e de dizer que “se coloca o time dele para atacar, sem atacantes, como fez o Barça, seria preso no Brasil”.
Juro que gargalhei nessa hora.
O mais lúcido ali, por incrível que pareça, foi Neymar, que com cara de choro, assimilou o golpe e disse que “tiveram uma aula de futebol”.
Enfim, apesar do baile e de ter finalmente tomado o vareio que esperei ele tomar (que não fosse com meu time) de um grande time de futebol e jogando o mais mágico e bonito do que se pode fazer com uma bola, Muricy ainda vai continuar ganhando seus $700 mil. Provavelmente, ele ganhe mais brasileiros (até o Tite ganha) com o mesmo futebolzinho de sempre, o seu “Muricibol”.
Mesmo assim, se por algum outro acaso do destino ele tiver a chance de disputar mais um Mundial de Clubes, com certeza o Barcelona estará lá para lembrar o sr. Muricy Ramalho de seu ditado mais famoso:
“A Bola Pune”.