Especial Corinthians Campeão da Libertadores: Parte 2
O texto de hoje é uma Bíblia escrita por alguém tão corintiana que o é até no username do Twitter. Nossa convidada de hoje é a Nayara Perone, mas vocês devem conhecê-la como @corinthiana, Dividido em três partes, é uma história muito legal de redenção, tradição e amor ao clube. Dá o play aew!
…Liberdade pra você
Corinthians minha vida O ano era 99 e eu lá queria saber desse campeonato. Mas ali estávamos nós, campeões de um Brasileiro fantástico em 98, com Marcelinho, Dinei e outros ídolos de nossa história. Fomos eliminados por nosso maior rival, mas comemoramos um Paulistão em cima deles, com direito a humilhar com embaixadinhas. Ali nascia uma mística. Uma fenda entre “paulistinha” como foi chamado o então campeonato Paulista pelo Paulo Nunes e a grande “Libertadores”. Eu tinha apenas 12 anos. No ano seguinte, perdemos de novo. Campeões Brasileiros indiscutíveis, com um time de brilhar os olhos, mais uma vez ficamos nos pênaltis. E assim seguiu. Essa angústia do “quase” é algo muito pior do que a do “nunca”. O quase, por vezes, faz você perder a cabeça. Faz você querer subir degrau de dois em dois, para chegar logo no final da escada. E quase sempre acaba caindo. E assim se modelava um calvário em torno de um campeonato. Quem me conhece, sabe que desdenho. E não porque quero comprar. Desdenho da fórmula ridícula da Libertadores, também chamada carinhosamente de Libertacinha. É varzeano. Mudou de formato inúmeras vezes. Formou campeões de 4 jogos. De 6 jogos. Trazia times que venceram a edição anterior direto para as semi-finais da próxima edição. Juíz caseiro, objetos atirados contra jogadores em campo, gramados semelhantes a pastos depois da tempestade, bagunça generalizada. E tudo isso, a muitos olhos, é muito louco. E ainda assim, apesar do que disse, ainda não havíamos chegado sequer a final dessa competição. De novo, a angústia do quase. Corinthians minha história O ano era 2010 e eu estava lá. Havíamos perdido o primeiro jogo das Oitavas de final da Libertacinha. “Esse ano vai”, pensava eu. “É só jogar na violência”, pensava novamente. Não foi. Vencemos, mas perdemos. A vitória por 2×1 desceu amarga. Cheguei em casa surda e rouca. Surda, porque levamos 35 mil apitos para atrapalhar o adversário. Rouca, porque cantei sem parar “Eu nunca vou te abandonar, porque eu te amo” boa parte do jogo. A fórmula estava errada. Não devíamos infernizar o adversário. Devíamos amar mais, empurrar mais, acreditar mais. Acreditar tanto no Corinthians, que o rival seria esquecido, anulado da realidade. Quis acreditar que o erro estava em nós. O “projeto” 2011 falhou novamente, por vaidade e ganância. Manter um ídolo nacional e exemplo de superação foi uma honra, ter seu trabalho junto ao nosso time, foi bom. Mas não se pode jogar a grandeza do clube nas costas de uma pessoa só. Enquanto isso, a mídia e os rivais tripudiavam enquanto podiam. A mídia burra, inventando “102 anos” da Libertadores. Gostaria até de saber qual foi o campeão de 1910, o da década de 30, por que não? Muito pianista essa mídia. A pressão nos atingia novamente. Era tudo que queriam. O famoso “eu tenho, você não” estava presente. “Penta campeões nacionais? Mas a Libertadores…” era o argumento que restava quando o desespero de ver o Corinthians campeão e disputando tudo que passava em sua frente batia mais forte. Quando é Corinthians, é mais difícil. Corinthians meu amor2010 Não consegui ver os jogos finais de 2010. Engessada e fora do est ádio, me restava ver na TV. Est ávamos na reta final do Brasileirão e o último jogo dependia do resultado de Fluminense x Guarani. Jogo este, que me lembro bem. Estava com meu avô, nós lado a lado vendo o jogo. Sheik marcara o gol do Fluminense, que a TV mostrava soando para nós como sadismo. “-Caralho, tanto trabalho pra nada?”, pensei. Meu avô, saudoso Seu Emílio, putíssimo. “-Esse técnico é muito burro, Nayara. Não tem como continuar com ele.” “-Acho que ele tá acertando o time. Mas acho que ele é burro e falta jogador”. Perco até dinheiro, mas não perco a mania de cornetar. Silêncio. Fim de jogo. Meu vô me olhou e disse: “-Queria ver o Corinthians ser campeão.” Eu também, vô. Também queria. Aquilo me cortou o coração. Mais do que ver o Corinthians perder, ver meu vô triste. Derrotas em casa eram dias amargos. Nem líamos o jornal. O rito era deixar a página de desgraça aberta e xingar muito. “Olha que merda, como pode acontecer isso com um time desse? Tem tanto dinheiro e não sabe comprar jogador?”. Xingávamos muito no jornal, era isso que ajudava a aliviar a raiva. 2011 E eu ainda de bengala. Uma bizarra lesão no meu joelho se tornou o calvário do último 1 ano e meio pra mim. Andava 20 minutos e queria sentar na rua e chorar de dor. Em algum momento entre Maio e Julho, que se passaram de forma tão rápida e devastadora, meu avô faleceu. Até hoje não sei a data ao certo, não procuro. No dia de seu falecimento, cheguei no hospital com a camisa do Corinthians e ele me viu e sorriu, mesmo já não conseguindo se comunicar. E nesse dia, ele faleceu. Isso me destruiu de todas as formas possíveis. Fiquei uns meses sem ver jogos, pois pra mim, era impossível não associar a paixão por futebol com o amor que tenho pelo meu avô. Passado o baque inicial, ainda com meu joelho estragado, enfiei na cabeça que arranjaria uma forma de voltar a ir ao est ádio e arranjei uma joelheira caríssima. E estava lá na reta final do Brasileiro 2011. Vencer aquele Brasileiro me trouxe a tona a primeira lágrima que soltei em est ádio na vida. Uma só, é verdade. Mas antes disso, em vitórias ou derrotas eu era implacável. Lembro quando uma vez minha mãe disse que quando perdemos alguém, entendemos o que é chorar com emoção. E vi o Corinthians ser campeão, infelizmente sozinha agora nessa jornada. 2012 Tive a honra de acompanhar de perto e ao vivo os jogos no Pacaembu. Mas de todos os jogos, o mais especial foi contra o Vasco. Se pudesse escolher um top 3 de jogos, esse estaria em primeiro lugar. 23/05 marcou a primeira vez que estive em um est ádio, com um tio, vendo exatamente o Corinthians se classificar para uma semi-final de Libertadores. 23/05 era o jogo das Quartas-de-final e é o dia do aniversário do meu avô. Passei o dia todo baqueada, tentando fugir do assunto. Impossível. Foquei então que deveríamos vencer aquele jogo e que isso seria o melhor presente que poderia dedicar mentalmente a meu avô. Passei o jogo inteiro cantando na arquibancada com os braços arrepiados. A nuca arrepiava. E o jogo tenso, aquela defesa do Cássio gelando meu est ômago, e eu não parava de pensar que era aniversário do meu avô, que não era possível que o dia seria mais triste ainda pra mim. Depois do gol do Paulinho, não senti mais nada. Dormente definiria o estado em que fiquei. Chorei copiosamente. Sentei no chão e ali fiquei. Sequer vi o que se passou no resto do jogo. Na volta, ainda em prantos, a única coisa que me passava pela cabeça: “meu vô tinha que estar aqui para ver isso”. Melhor presente para ele, não haveria. Os outros jogos, apesar de tensos, não me derrubaram como esse. Estava lá, novamente implacável e confiante. E então tive a honra de estar na grande final, no Pacaembu, com amigos e com a torcida para ver esse grande momento de nossa história. 2 golaços do Sheik, comemorei muito. Mas desabei mesmo no final. Corinthians campeão da Libertadores. Fim de um tempo de cobranças, fim de um tempo de chacotas. Chorei, claro. Ali tudo me passou pela cabeça, desde as vezes em que consolei meu avô quando perdemos campeonatos e desde as vezes em que comemoramos juntos. Essa, como ele dizia, “era bom ganhar porque ainda não temos”.

E aí está. 14 jogos invicto. Com gol daquele Sheik, o mesmo que me tirou uma alegria outrora, me trazia uma grande alegria agora. Melhor defesa da história do campeonato. Ganhamos, e ganhamos para lavar a alma. E então ao chegar no carro para ir a comemoração na Paulista, chorei. Chorei de soluçar, mais e mais. Como gostaria que meu avô estivesse aqui para compartilhar essa alegria com ele. E então ouvi algo que pelo menos me reconfortava “Nayara, seu vô ainda é parte sua. Deixou com você o Corinthians para se lembrar da presença dele, sempre”. É mesmo. Muito obrigada, vô. Essa é a melhor herança que alguém pode deixar. Fomos campeões com o time mais Corinthians de todos, que dividiram a grandeza do Corinthians para carregar em suas costas. E vai Corinthians, que você é maior que qualquer taça.
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Henrique

